1. ESPÍRITO SANTO, O AGENTE CAPACITADOR
Autor: Pb. José Roberto A. Barbosa
Fonte:http://www.subsidioebd.blogspot.com/
o pastoral? Temos pelo menos duas palavras na bíblia que se referem a esse tipo de cuidado, a primeira, oriunda do hebraico, é רעה (ra ̀ah), significa: apascentar, cuidar de, alimentar, pastorear (referindo-se ao governante, mestre, no sentido figurado), associar-se com, ser amigo de (sentido provável)[1]. A segunda palavra encontra-se no novo testamento, é ποιμαινω (poimaino), significa: apascentar, cuidar do rebanho, tomar conta das ovelhas, reger, governar, prover pasto para alimentação, nutrir, cuidar do corpo de alguém, servir o corpo, suprir o necessário para as necessidades da alma[2].Fato interessante é que o dicionário Aurélio, em sua quinta definição, nos mostra cuidado como sendo certa “inquietação de espírito”. Segundo Leonardo Boff, a sociedade contemporânea, chamada sociedade do conhecimento e da comunicação, está criando, contraditoriamente, cada vez mais incomunicação e solidão entre as pessoas.
A Internet pode conectar-nos com milhões de pessoas sem precisarmos encontrar alguém. Pode-se comprar, pagar as contas, trabalhar, pedir comida, assistir a um filme sem falar com ninguém. Para viajar, conhecer países, visitar pinacotecas não precisamos sair de casa. Tudo vem à nossa casa via on-line.[3]
Talvez possamos, a princípio, discordar de Boff em relação à comunicação – que sem sombra de dúvidas é proporcionada pela internet de maneira extraordinária – porém, se pararmos para refletir na relação com a realidade concreta, com seus cheiros, cores, frios, calores, pesos, resistências e contradições, notamos que isso cada vez mais é exibido pela imagem virtual que é somente imagem.
A Igreja virtual é um fenômeno que vem crescendo cada vez mais, hoje encontramos pessoas que não precisam sair de casa para assistir a um culto, tendo ainda a possibilidade de participar dele, através da internet. Toda essa gama de informações novas tem seus pontos positivos e negativos. Não podemos, por exemplo, fechar nossos olhos para as conversões que tem ocorrido através desses meios de comunicação em massa.
Nosso objetivo, porém, é ir além disso e trazer esse tema para o âmbito pastoral. Poderia o ministro religioso exercer todas as suas atividades de forma eficaz utilizando-se apenas dessas novas tecnologias? Leonardo Boff tem toda razão quando afirma que o mundo virtual criou um novo habitat para o ser humano, caracterizado pelo encapsulamento sobre si mesmo e pela falta do toque, do tato e do contato humano.
Essa anti-realidade afeta a vida humana naquilo que ela possui de mais fundamental: o cuidado. Boff afirma que o cuidado é, na verdade, o suporte real da criatividade, da liberdade e da inteligência. No cuidado identificamos os princípios, os valores e as atitudes que fazem da vida um bem-viver e das ações um reto agir.
Por que tanta ênfase em uma única palavra? A resposta para tal pergunta está na figura do pastor de ovelhas. O pastor é o responsável por suas ovelhas, não no sentido de controle, mas no sentido de cuidado, é ele que precisa guiá-la, é ele que precisa alimentá-la, é ele que precisa dar amor e afeto a ela. O pastor não pode deixar que nenhum animal feroz ataque sua ovelha, pelo contrário, ele deve fortalecer a cerca, a fim de que nenhum animal selvagem entre em seu pasto.
E onde o cuidado aparece em nossa sociedade? – se pergunta Leonardo Boff, o qual logo responde – “Em algo muito vulgar, quase ridículo, mas extremamente indicativo: no tamagochi”[4].
O que é um tamagochi? É uma invenção japonesa dos inícios de 1997. Um chaveirinho eletrônico criado pela Bandai[5], com três botões abaixo da telinha de cristal, que alberga dentro de si um bichinho de estimação virtual. O bichinho tem fome, come, dorme, cresce, brinca, chora, fica doente e pode morrer. Tudo depende do cuidado que recebe ou não de seu dono ou dona. O tamagochi dá muito trabalho. Como uma criança, a todo momento deve ser cuidado; caso contrário, reclama com seu bip; se não for atendido, corre risco. E quem é tão sem coração a ponto de deixar um bichinho de estimação morrer?
O brinquedo transformou-se numa mania nesta primeira década e mudou a rotina de muitas crianças, jovens e adultos que se empenhavam em cuidar do tamagochi, dar-lhe de comer, deixá-lo descansar e fazê-lo dormir. O cuidado faz até o milagre de ressuscitá-lo, caso tenha morrido por falta de atenção e de cuidado. O chaveirinho fez tanto sucesso, que logo virou jogo virtual e anime[6], denominado “Digimon[7]”. Na mesma época era lançado outro jogo cujo nome era Pokémon[8], que posteriormente virou anime também. 
Apesar de ser de outra produtora, Pokémon trazia em si a mesma formula de Digimon: Cuidar do seu bichinho de estimação e depositar todo o seu afeto e carinho nele. Muitas vezes, ao invés de controlar o bichinho, o personagem era manipulado, sendo obrigado a fazer algo por causa do seu bichinho de estimação virtual. Passados cerca de dez anos, até hoje Pokémon ainda ocupa seu espaço no mercado, tendo uma série de jogos e temporadas de anime, sendo febre mundial.
Para Boff, o cuidado pelo bichinho de estimação virtual denuncia a solidão em que vive o homem/a mulher da sociedade da comunicação nascente. Mas anuncia também que, apesar da desumanização de grande parte de nossa cultura, a essência humana não se perdeu. Ela está aí na forma do cuidado transferido para um aparelhinho eletrônico, ao invés de ser investido nas pessoas concretas à nossa volta: na vovó doente, num colega de escola deficiente físico, num menino ou menina de rua, no velhinho que vende o pão matinal, nos pobres e marginalizados de nossas cidades, enfim, nas pessoas que, mesmo caladas, seu interior clama por socorro.
A reflexão de Boff nos leva a refletir sobre nossas prioridades, analisando para o que ou quem transferimos nosso cuidado, se para a obra de Deus, ou para o jogo de RPG[9] que simula a realidade. No primeiro capítulo citamos a concepção veterotestamentária da dimensão mais concreta da vida humana, que engloba o corpo (basar), a alma (nefesh) e o espírito (ruah). Paulo nos aconselha a manter os três irrepreensíveis: “O Deus da paz vos conceda santidade perfeita; e que vosso espírito, vossa alma e vosso corpo sejam guardados de modo irrepreensível para o dia da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5.23).
Se fizermos uma exegese desse texto, notaremos que a palavra utilizada é αμεμπτως (amemptos), significando: irrepreensivelmente, de tal forma que não existe razão para censura[10]. Logo percebemos que para nos mantermos irrepreensíveis, é necessário haver equilíbrio, e isso só conseguimos com uma boa administração de nosso tempo.
Nasce então outra questão: que tanto de tempo tenho doado para o entretenimento, para o mundo virtual? Domínio de tempo pressupõe domínio próprio, uma das virtudes do fruto do Espírito apresentado em Gálatas 5:22. Quando adquirirmos isso, não será difícil transferir uma parcela de nosso cuidado para os oprimidos, aqueles que precisam da sua ajuda, de conselho, que passam fome ou até pensam em se suicidar.
Sem dúvida alguma os dados acima não são um convite a deixar de jogar videogame, utilizar a internet ou assistir televisão, mas sim um alerta: o jovem que anseia tornar-se ministro de confissão religiosa precisa administrar bem seu tempo, de forma que sempre possa fazer algo produtivo para seu ministério. Ele precisa desde cedo se adaptar a essas realidades, para não ser pego de surpresa, ou fazer algo do qual se arrependa futuramente em sua caminhada ministerial.
[1] STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, p. 982.
[2] STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, p. 1607.
[3] BOFF, L. Saber Cuidar: Ética do humano – compaixão pela terra, p. 11.
[4] Ibid., p. 12.
[5] Empresa Japonesa de entretenimento.
[6] Desenho animado Japonês caracterizado por olhos grandes, geralmente oriundo de um mangá, uma espécie de desenho em quadrinhos que se lê da direita para a esquerda.
[7] Do inglês Digital Monsters, siginifianco Monstros Digitais.
[8] Do inglês Pocket Monsters, siginificando Monstros de Bolso.
[9] Do inglês Rolling Playing Game, significando Jogo de interpretação Pessoal. É um jogo com realidade virtual no qual o jogador incorpora a vida do personagem, escolhendo o que ele vai fazer. A maioria dos jogos da série Pokémon é nesse estilo.
[10] STRONG, James. Dicionário Bíblico Strong: Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong, p. 1296.
![[panorama+do+livro+de+atos+dos+apostolos.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhNWiVnBQzhs3PULauB7DIjhyphenhyphen5e_vETiqzbCOCLX1HmlKW3AepE70COY_BUGaTwmDmnqws4KsBxJyyy1PHBUxVt1sL2K7jE09kNbm0OcblYNp1WIGQB2pp4d0PLOjt8wtIcuz33EEqAU7Q/s1600/panorama+do+livro+de+atos+dos+apostolos.jpg)
As narrativas de vocação no A
ntigo Testamento nos levam a refletir sobre quão profundas são as experiências com Deus concernente àqueles que assumem uma postura fora do comum. Homens que fizeram a diferença em sua geração, pois ouviram a voz de Deus e depositaram toda a sua confiança nela. Portanto, escrever sobre espiritualidade e vocação, no ambiente cristão, implica em retornar a uma leitura das Escrituras, da Bíblia, pois essa é a base de toda a teologia cristã, como fonte de revelação.
Os textos, as narrativas devem ser nosso ponto de partida e, ao mesmo tempo, nosso porto seguro, lembrando, porém, que eles são dinâmicos e, por isso, comunicam ainda hoje com grande força de presença e significado.[1]
Uma vez feito isso, é necessário analisar o significado do termo ‘vocação’, pois, ao o usarmos, evocamos uma gama de sentidos entrelaçados, que transcendem, porém, o aspecto religioso de nosso interesse aqui, pois ‘vocação’ estaria ligado ao ‘ato de chamar’, à tendência ou ao talento de alguém no exercício de uma atividade específica. Temos então que quando falamos em vocação, pensamos – especialmente dentro do contexto do Antigo Testamento – no chamado de Deus, no qual o ser humano é convocado a participar de seus planos e ações, e desafiado a estar a serviço desse chamado.
Chamado este, que não tem sua origem na motivação política, sociológica, ética ou psicológica, mesmo sendo a realidade histórica objeto da vocação. “A vocação está fundamentada no mistério da livre ação de Deus em direção ao ser humano, por isso o testemunho se torna um elemento indispensável para sua compreensão”[2].
Já se tratando de Espiritualidade, o termo hebraico, bem como nas línguas semíticas de modo geral, tem como base de sentido, para o que nós chamamos de espírito, a idéia de: “o ar em movimento”. Mas essa idéia levada ao ser humano, especialmente no que diz respeito ao Espírito de Deus no homem, está ligada à experiência de respirar, é o que dá vida à vida. É o poder dinâmico da vida. Segundo Sousa “A espiritualidade seria, portanto, viver no envolvimento com o mais profundo da vida. Então, a experiência com o divino, enquanto criador da vida, pois une os elementos da essência com os da existência. Dessa maneira, um encontro com Deus tem este caráter eminentemente espiritual”[3].
Para esclarecer melhor esta dinâmica, foi feito um estudo sistemático de cinco passagens do Antigo Testamento, que relatam Deus se revelando a cinco homens, os quais foram chamados por Ele. O que é interessante é que todas essas narrativas têm elementos comuns extremamente importantes para a identificação do texto como “narrativa de vocação”. Esses elementos são os verbos enviar e ir, que regem as narrativas, estabelecendo a missão, dando ao comissionado um caráter especial que, nesse contexto, chamamos de vocação, considerando ser a divindade o sujeito do verbo enviar, sendo, assim, aquele que comissiona. Temos então, a seguinte sistemática:
| Livro | Êxodo | Juízes | Isaías | Jeremias | Ezquiel |
| Personagens | (Moisés) | (Gideão) | (Isaías) | (Jeremias) | (Ezequiel) |
| Texto Bíblico | 3.10-12 | 6.14b | 6.8 | 1.7 | 2.3,4 |
| Verbo | “Eu te enviarei” | “Não te envio eu” | “A quem enviarei...?” | “...eu te enviar” | “eu te envio...” |
| Texto bíblico | 3.10 | 6.14a | 6.9 | 1.7 | 3.1 |
| Verbo | “... vai...” | “Vai...” | “Vai...” | “...irás” | “e vai...” |
Note que em todos os cinco casos Deus utiliza esses dois verbos de forma explicita, o que nos leva a entender que é uma espécie de Comissão, seguida do sinal, ou confirmação de que Deus irá usá-los, temos então uma proximidade formal entre essas cinco narrativas, que formam essa ‘narrativa de vocação’.